Publicado em: 23/06/2026
[Artigo] Vício em Bets - Problema de Saúde Pública
Levantamento recente realizado pelo Programa de Defesa e Proteção do Consumidor (PROCON) de São Paulo aponta que 39,7% das pessoas que começam a utilizar os sites de jogos de apostas online (Bets) contraíram endividamento. Da totalidade do universo pesquisado (2.724 pessoas), 60,85% eram do sexo masculino e 39,15% do sexo feminino. Dentro desse perfil de apostadores, 38,59% estavam na faixa de renda entre um e dois salários mínimos, enquanto 34,65% estavam na faixa entre dois e quatro salários mínimos.
Outro dado relevante da pesquisa é que 30,14% dos entrevistados gastaram mais de R$ 1,0 mil por mês em apostas, enquanto 27,04% gastaram entre R$ 100,00 e R$ 1,0 mil. O restante, 42,82%, o desembolso foi de até R$ 100,00/mês. Entretanto, o maior impacto financeiro ocorre principalmente sobre as famílias com menor renda, por comprometer uma parte maior do orçamento. Como consequência, essas famílias recorrem a opções caras para o financiamento de suas dívidas, como a cartões de crédito e cheque especial, o que aumenta sistematicamente o endividamento.
Além dos problemas sociais, a aposta em bets também gera uma doença e um problema de saúde pública. A doença é chamada de ludopatia ou doença do jogo patológico, que inclusive é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ela atua diretamente no cérebro e afeta a saúde mental de forma similar à dependência química do álcool e das drogas, pois a expectativa de ganhos gera uma intensa liberação de dopamina no cérebro, que é associada ao prazer. Isto faz com que o indivíduo passe a ter intensa compulsão pelo jogo.
Para a recuperação dessa dependência, os especialistas apontam que é necessário identificar no indivíduo as características desse transtorno. Há necessidade, entretanto, que a pessoa sinta vontade e procure o tratamento adequado. Os pontos relevantes mencionados pelos especialistas são:
Preocupação excessiva: A pessoa passa a maior parte do tempo pensando em como conseguir dinheiro para jogar ou planejando a próxima aposta;
Aumento do valor das apostas: Necessidade de arriscar quantias cada vez maiores para obter a mesma sensação de prazer;
Efeito "recuperação": Continuar apostando na tentativa de reaver o dinheiro perdido em apostas anteriores;
Mentiras e omissões: Esconder da família ou amigos a frequência e os valores reais que são apostados;
Alterações de humor: Sentir forte irritabilidade, ansiedade ou angústia ao tentar diminuir ou parar de jogar.
Um dos fatores adversos ao tratamento é que as empresas que exploram esse tipo de jogo não medem esforços para manter seus clientes e também atrair novos apostadores. Para isso, seus investimentos em publicidade são vultosos, inclusive por meio das redes sociais, direcionando propagandas massivas aos apostadores envolvidos. Isto poderia ser evitado com a proibição da veiculação de qualquer divulgação desse tipo, aos mesmos moldes como foi feito com o cigarro.
Entretanto, o próprio Governo se vê beneficiado com a arrecadação de impostos sobre o jogo, que foi regulamentado em 2024. Assim, no ano de 2025 o Governo Federal arrecadou R$ 9,95 bilhões com os impostos das bets. Em 2026, com o aumento no ritmo das apostas, somente no primeiro quadrimestre já foram arrecadados R$ 4,50 bilhões, valor este similar ao que é arrecadado em setores importantes da economia, como é o da agricultura e o da indústria.

