• Amigos da Diálise

    Amigos da Diálise

    Dizem que as maiores e mais sinceras amizades surgem dos lugares mais impensados. Afinal, conceitualmente, amizade é uma relação afetiva, sem características romântica-sexual entre as pessoas, podem ser duas ou mais. É um relacionamento humano que envolve o conhecimento mutuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo.

    Palavras tão bonitas para caracterizar um sentimento tão doce se tornam difíceis ao imaginar que uma amizade bonita e verdadeira pode surgir de um lugar frio onde uma doença é o ponto em comum. Mas é possível. O setor de Hemodiálise do Hospital Evangélico de Cachoeiro de Itapemirim (HECI) é a prova disso. Lá são 14 máquinas de hemodiálise ligadas em três turnos de segunda a sábado para o procedimento. Cada turno dura, em média três horas. “É um tempo muito longo para ficar aqui dentro. Então a descontração com os outros pacientes e a equipe ajuda a tornar tudo menos doloroso”, comenta Erica Miranda, paciente renal há 26 anos.

    Ela, que nasceu com insuficiência renal, conta que já passou por dois transplantes. “O primeiro tinha apenas nove anos de idade, o meu pai que doou. Mas infelizmente não deu certo. O segundo, cerca de 12 anos depois, já veio de um doador falecido, e novamente não funcionou,” conta. Agora, ela está de volta à cadeira de hemodiálise e também à rotina de restrições alimentares e de mobilidade por conta das sessões 3 vezes na semana. “Eu não deixo a minha condição ditar a minha vida. Faço de tudo, trabalho, saio, danço, viajo. Claro, não como qualquer pessoa até porque já estou um pouco debilitada devido aos anos de tratamento, mas isso não me desanima.”

    Érica pretende retornar a fila para tentar um terceiro transplante e torce para que desta vez tudo corra bem.  Mas ela garante que se não fosse pelo apoio e carinho recebidos pelos amigos da hemodiálise e também dos colaboradores do setor, a caminhada seria bem mais difícil do que já é.

    O Sr. Jair Resende concorda. Ele não tem a experiência na máquina de diálise como a Erica, afinal são somente três anos nessa rotina e embora no auge de seus 93 anos, ainda vê muita vida pela frente, graças ao companheirismo ali dentro. “O tempo passa que a gente nem sente”, comenta.

    De acordo com o médico nefrologista, Sérgio Damião, a vida de um paciente com insuficiência renal é muito restritiva. “Além de ter alguns impedimentos na alimentação, a rotina acaba se modificando devido a esse compromisso com a máquina de hemodiálise. Isso que prolonga a vida de pacientes que não podem transplantar ou que estão aguardando pelo seu novo rim”, explica.

    E é bem assim mesmo. “Antes da mamãe ser diagnosticada como paciente renal, a gente podia sair de férias e ficar dias fora. Agora é mais difícil uma vez que ela precisa fazer a Hemodiálise dia sim, dia não, sem falta”, conta Juliana Borges. A mãe, Dona Eloíza, é paciente do hospital desde 2017 e segundo a filha, o ambiente só a faz bem. “A mamãe ficou muito deprimida com o diagnóstico e todas as restrições, mas aos poucos ela foi se enturmando e hoje posso dizer que ela se adaptou muito bem a sua nova realidade. Tudo isso por causa dos companheiros. Sempre chega em casa cheia de histórias”, conta.

    Diante de tudo isso, não é difícil concluir que a celebre frase do pensador Joseph Addison traduz exatamente o sentimento de todos os 79 pacientes que diariamente passam pelo setor “A amizade desenvolve a felicidade e reduz o sofrimento, duplicando a nossa alegria e dividindo a nossa dor.”